A lei eterna, a faculdade radical do espírito humano, é o movimento. Quanto maior for esse movimento mais ele preenche o seu fim, mais se aproxima desses pólos dourados que ele busca há séculos. O livro é um sintoma de movimento? Decerto. Mas estará esse movimento no grau do movimento da imprensa-jornal? Repugno afirmá-lo.

O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicista contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a idéia de, um homem, mas a idéia popular, esta fração da idéia humana.

O livro não está decerto nestas condições; — há aí alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal. Depois, o espírito humano tem necessidade de discussão, porque a discussão é — movimento. Ora, o livro não se presta a essa necessidade, como o jornal. A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual. A discussão pelo livro esfria pela morosidade, e esfriando decai, porque a discussão vive pelo fogo. O panfleto não vale um artigo de fundo.

Isto posto, o jornal é mais que um livro, isto é, está mais nas condições do espírito humano. Nulifica-o como o livro nulificará a página de pedra? Não repugno admiti-lo.

Já disse que a humanidade, em busca de uma forma mais conforme aos seus instintos, descobriu o jornal.

O jornal, invenção moderna, mas não da época que passa, deve contudo ao nosso século o seu desenvolvimento; daí a sua influência. Não cabe aqui discutir ou demonstrar a razão por que há mais tempo não atingira ele a esse grau de desenvolvimento; seria um estudo da época, uma análise de palácios e de claustros.

As tendências progressivas do espírito humano não deixam supor que ele passasse de uma forma superior a uma forma inferior.

Demonstrada a superioridade do jornal pela teoria e pelo fato, isto é, pelas aparições de perfectibilidade da idéia humana e pela legitimidade da própria essência do jornal, parece clara a possibili­dade de aniquilamento do livro em face do jornal.

Machado de Assis. O Jornal e o Livro. In: Obra Completa. vIII. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 10 e 12/01/1959.


Tendo como referência o texto O Jornal e o Livro, de Machado de Assis, discuta a possibilidade de “aniquilamento” do jornal e do livro pelas novas ferramentas de comunicação. Extensão: 600 a 650 palavras.


Velho e Novo são desde tempos imemoriais bandeiras que sempre seduziram combatentes das mais diversas classes sociais e idades, convocando-os para a luta ontológica que parece nunca chegar a uma conclusão definitiva. Representantes de ambos os lados competem de uma forma ferrenha para deixar claro para o mundo qual é o melhor, aquele que vai seguramente conduzir a uma realização mais completa e total da humanidade.

O discurso dos defensores da novidade, do progresso e da transformação é bastante tentador. Argumentam que a sede e a busca por movimento estariam, de fato, no âmago do espírito humano, e impulsionariam o homem a aventurar-se sempre por lugares novos, caminhos novos e idéias novas. Seria, então, inútil tentar resistir a tão poderoso ímpeto, que acabaria, mais cedo ou mais tarde, absorvendo para si tudo o que encontrasse pelo caminho, e eliminando definitivamente qualquer resquício ou sombra das coisas ditas antigas, ou ainda antiquadas.

Por sua vez, o discurso dos arautos da tradição é bem mais cauteloso. Em toda mudança, grande ou pequena, estaria embutido um risco considerável, ameaçando assim um estado de coisas e uma ordem que já estava estabelecida e consolidada. Podem até mesmo não discordar de que algumas transformações podem vir a ser boas e trazer melhorias significativas na qualidade de vida das pessoas, mas nunca se disporiam a ser os pioneiros, deixando para outros tal tarefa e aderindo somente depois de passada a fase mais turbulenta que a maioria das transformações, especialmente as estruturais, trazem consigo.

Inovações tecnológicas são, em muitos casos, o pivô central dessas discussões. Acontecimentos importantíssimos, como o surgimento do automóvel, da imprensa, das indústrias de bens de consumo, da escrita, do rádio, entre muitos outros, revolucionaram a forma como as pessoas interagiam com o mundo. O desenvolvimento dos meios de transporte e, principalmente, dos meios de comunicação, ajudou a encurtar distâncias que antes pareciam intransponíveis. A descoberta da energia nuclear propiciou avanços consideráveis, como um rendimento maior na geração de energia, além da aplicação na propulsão de submarinos e na medicina, constituindo peça-chave de modernos aparelhos de diagnóstico, como os de raios-x.

Em todos esses acontecimentos, e em muitos outros similares, pode ser percebida a incapacidade dos novos agentes de preencher todos os espaços e de realizar uma transformação absolutamente total. Os fatos comprovam que mesmo depois de mudanças estruturais, alguns fortes representantes do Antigo sempre teimam em permanecer firmes, resistindo bravamente aos efeitos do tempo e fazendo cair por terra previsões precipitadas. O disco de vinil, por exemplo, apesar de contar com um número de admiradores consideravelmente menor do que no auge de sua glória, ainda encanta muitos entusiastas, que mesmo após sucessivas revoluções na indústria fonográfica, preferem a beleza do analógico à ostentação do digital.

Outros exemplos fortes e notáveis são o livro e o jornal. Em alguns momentos com pretensões de superioridade de um sobre o outro, acabaram por complementar-se, resistindo juntos, cada qual em seu campo de atuação, às pressões dos avanços das tecnologias digitais, com especial destaque para a rede mundial de computadores. Seria precipitado dizer hoje, mesmo após algumas décadas da chamada revolução digital da informação, que o jornal ou o livro deixarão de existir num futuro próximo.

Não existe, portanto, a necessidade absoluta de que um entre os dois, Velho e Novo, prevaleça e elimine completamente o outro. Tampouco é considerável a possibilidade de que isso aconteça. Percebe-se, de fato, que há contribuições importantes e úteis em ambos os lados, e uma abordagem mais madura e consciente seria a busca da conciliação, unindo as qualidades e deixando de lado diferenças que provocariam nada além de discussões intermináveis e retrocessos.