A proposta de redação foi baseada no texto abaixo, de Luis Fernando Verissimo. Foi pedida uma disssertação sobre o tema suscitado pela crônica, contendo de 600 a 650 palavras. Meu texto encontra-se logo abaixo da referida crônica.


DEFENESTRAÇÃO

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.

Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.

— Os hermeneutas estão chegando!

— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada…

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.

— Alô…

— O que é que você quer dizer com isso?

Traquinagem devia ser uma peça mecânica.

— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas.

Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussufrar no ouvido das mulheres:

— Defenestras?

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas… Ah, algumas defenestravam.

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.

Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? “Nestes termos, pede defenestração…” Era uma palavra cheia de implicações.

Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:

— Aquele é um defenestrado.

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.

Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestraçao” vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino.

Ato de atirar alguém ou algo pela janela.

Ato de atirar alguém ou algo pela janela!

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo. — Les defenestrations. Devem ser proibidas.

— Sim; monsieur le Ministre.

— São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.

— Sim, monsieur le Ministre.

— Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdit de defenestrer”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.

— É esta estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor…

— Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar — diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suite matrimonial no 17— andar.

— Querida…

— Mmmm?

— Há uma coisa que eu preciso lhe dizer…

— Fala, amor.

— Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:

— Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

— Fui defenestrado…

Alguém comenta:

— Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.


O tamanho do vocabulário empregado pela maioria das pessoas em sua comunicação cotidiana é sensivelmente menor do que o existente e disponível na língua. Uma consequência natural, e mesmo óbvia, desse fato, é o desconhecimento de grante parte de palavras consideradas difíceis, mas que nada mais são do que incomuns, e relacionadas a objetos e situações que ocorrem muito raramente, quando ocorrem. Quantos são os que podem se vangloriar, por exemplo, de já ter presenciado alguém sendo atirar por uma janela, ou sendo defenestrado? Dentre essas palavras, existem ainda aquelas que são específicas de um certo meio, formando jargões próprios: o jurídico, o da informática, da economia, entre outros.

Podem acontecer situações inusitadas e engraçadas: não raro, as tais palavras difíceis são usadas para revestir quem as pronuncia de uma certa aura de sabedoria e elegância, ainda que não se saiba seu significado exato. Se o interlocutor igualmente ignora tal significado, há boas chances do efeito desejado ser alcançado. Caso contrário, o pretendente a sábio pode acabar passando uma grande vergonha. Em ambos os cados, boas risadas podem ser arrancadas de ventiausi transeuntes.

A existência de palavras mais complexas e elaboradas, não só na língua portuguesa, mas também em outras línguas faladas ao redor do globo terrestre e em todos os países, demonstra a grande riqueza nelas presente, riqueza esta que pode e deve ser utilizada não como instrumento de ostentação de poder, mas ao contrário, para que a comunicação entre as pessoas, em todos os seus âmbitos e instâncias, seja significativamente mais fluida.

A descoberta de um vocabulário menos frequentemente utilizado pode dar-se das mais diversas formas: ao assistir um telejornal, um filme, um documentário, em uma palestra proferida por uma pessoa sabidamente mais culta, como um professor universitário ou um escritor, entre outras. Mas é a mídia escrita a que, por excelência, representa a fonte mais abundante e mais facilmente acessível de palavras incomuns e desconhecidas do grande público. Podem ser citados como exemplos: jornais, tanto os impressos como os disponíveis para leitura na internet; livros de literatura, técnicos e didáticos; trabalhos acadêmicos; revistas semanais e outras com menor frequência de publicação; textos informativos em geral, blogs, entre muitos outros.

A aquisição e incorporação deste conhecimento pode contribuir grandemente para uma maior desenvoltura, principalmente ao falar em público, mas também em conversas menos formais. Além disso, as ideias podem ser expressas com muito maior clareza e nitidez, tornando mais fácil e descomplicada a compreensão do que se deseja dizer por seus respectivos interlocutores, eliminando eventuais ambiguidades. Diante disso, percebe-se a extrema importância de grandes campanhas de incentivo à leitura, tanto as que são iniciativa do governo, como as privadas.

O uso mais corrente de um grupo reduzido de palavras não deve ser entendido somente como resultado de uma educação escolar deficiente, ou ainda de uma vivênci acultural menos rica. É, além disso, e sobretudo, um fenômeno inerente à própria língua, em especial à linguagem falada e coloquial.

É claro que isso não deve ser tomado como pretexto para que governos locais e nacionais se furtem de investir uma parcela considerável de seus orçamentos em educação, construindo, ampliando e reformando escolas e universidades, contratando e capacitando adequadamente professores, evitando atrasos no pagamento e reajuste de salários, e criando e executando políticas que contribuam para elevar o nível de aprendizado e a qualidade do ensino.

O mesmo vale para investimentos em cultura, destacando-se a necessidade de promoção das artes como um todo, patrocínio de obras cinematográficas, teatrais e literárias, construção e manutenção de centros culturais, museus e casas de espetáculos, tudo de forma que seja o mais acessível, dentro das possibilidades, para a população. Tais políticas educacionais e culturais, além de melhorar a qualidade de vida no país, combatem indiretamente problemas estruturais, como a má distribuição de renda e as desigualdades sociais.