Texto que escrevi a pedido de uma amiga, para um curso de formação de missionários na Amazônia.

Somos seres sociais. Não nos bastamos a nós mesmos e não cabemos em nós mesmos. Por mais que tentemos nos isolar do mundo e de todos, levar nossa própria vidinha e nos preocupar somente com nossos próprios problemas, mais cedo ou mais tarde acabamos esbarrando com outros como nós. Lutar contra essa nossa tendência a socializar-nos parece que é como lutar contra nossa própria natureza, contra a substância mesma da qual somos feitos. Nossos dias estão repletos de encontros potenciais, que dependem da nossa própria iniciativa para se concretizar. São um infinito de pessoas com as quais cruzamos todos os dias; pessoas como nós, com sonhos, desejos, sofrimentos e angústias. Irmãos, pai, mãe, vizinhos, amigos e colegas de classe ou de trabalho, professores, funcionários que nos servem, chefes e superiores que servimos, pessoas desconhecidas que sempre encontramos no ônibus, no restaurante ou no caminho a pé para a escola… rotina e improviso, programado e inesperado se misturam e se harmonizam para constituir a nossa vida.

Diante de todas essas situações cotidianas, sempre nos são apresentadas duas opções muito claras e distintas: acolher ou rejeitar; ir ao encontro do outro, tomar a iniciativa ou nos mantermos na posição mais confortável, sem arriscar muito esforço. Parece que algo dentro de nós, lá bem fundo mesmo, nos impele a tomar a primeira opção, apesar de outras coisas menos profundas, também dentro de nós, nos dizerem para ir pelo caminho mais fácil. E quando finalmente nos decidimos, quando nos arriscamos, algo em nós é transformado: uma nova chama começa a arder. Ao nos encontrarmos com o outro, com o diferente, nos encontramos com nós mesmos, e nos encontramos com Deus, o Todo-Outro… o Todo-Amor.

Isso à primeira vista parece bastante contraditório e paradoxal. Como pode ser possível que, tentando conhecer e descobrir mais sobre outro, sobre alguém completamente diferente de mim, eu venha a ter um conhecimento mais profundo e real sobre mim mesmo, sobre quem sou? Se pararmos para pensar um pouco, veremos que isso faz sim um certo sentido, que não é de todo absurdo. Como saberíamos que existe o amarelo, se não existissem o verde, o azul e todas as outras cores? Como saberíamos o que é o sabor doce, se nunca experimentássemos nada salgado? Como eu saberia quem sou, se todas as outras pessoas fossem iguais a mim? Não seriam, no fundo, outras: seriam as mesmas!

Reconhecemos a identidade das coisas e das pessoas baseando-nos nas diferenças. Sabemos o que ou quem são pelo contraste, pela diversidade em relação aos que os rodeiam. Daí vem a necessidade que sentimos de nos relacionar, o desejo que nos impele a ir ao outro, ao diferente, para termos uma identidade mais bem-definida, para sabermos com mais clareza quem somos e assim ser com mais intensidade.

Esse processo de ir ao encontro do outro, esse risco que corremos ou não, na maioria das vezes é muito difícil, e até mesmo doloroso, porque nunca podemos nos relacionar apenas com uma parte de outra pessoa: esta é um todo, inteira. Também nós não podemos ir ao outro estando dispostos a dar a conhecer somente parte de nós mesmos. Quando nos relacionamos com outros, nos apresentamos como somos: com qualidades, alegrias, problemas e mudanças de humor constantes. E não só isso: somos chamados a também acolher o outro como é, na sua totalidade, com todos os defeitos e aptidões.

Muitas vezes existe a tendência de tentar fazer o outro ser um de nós, fazê-lo pensar da mesma forma que nós pensamos e ter os mesmos costumes que nós temos. Essa tendência vai diretamente contra a nossa natureza mais profunda, a nossa sede fundamental por identidade e por sentido. É como querer que todas as pessoas sejam exatamente iguais a nós: mesmo rosto, corpo, idéias, tudo! Até a morte seria melhor que isso! É exatamente a diversidade que torna o nosso mundo tão belo e tão agradável aos olhos. A unidade não é oposta à diversidade, mas ambas complementam uma a outra e formam uma harmonia necessária à vida.

E para que esse diálogo, intercâmbio de idéias e experiências e partilha de vida, aconteça de fato e dê muitos frutos, é necessário o amor. Não qualquer amor, mas aquele que é paciente, bondoso, que não tem inveja nem é orgulhoso ou arrogante. É necessário o amor que não é escandaloso, que não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. É preciso o amor que não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

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Why talk?

Text I wrote at the request of a friend, for a training course of missionaries in the Amazon.

We are social beings. We aren’t enough to ourselves and we do not fit in ourselves. Even if we try very hard to isolate ourselves from the world and from everything, to live our own little lives and concern ourselves only with our own problems, sooner or later we end up bumping with others like us. It seems that fighting this tendency to socialize is like fighting our own nature, going against the very substance of which we are made. Our days are filled with potential meetings, which depend on our own initiative to fulfill. They are an infinity of people with whom we cross every day, people like us, with dreams, desires, suffering and distress. Brothers, father, mother, neighbors, friends, classmates or workmates, teachers, people who serve us, chiefs and higher whom we serve, unknown people we meet everyday in the bus, in the restaurant or on the way to school… routine and improvisation, scheduled and unexpected come together and harmonise to form our lives.

In the face of all these everyday situations, we are given two very clear and distinct choices: welcome or reject; to meet the other and take the initiative, or staying in the most comfortable position, without risking much effort. It seems that something within us, deep inside, drives us to take the first option, although other less profound things, also within us, tell us to go by the easier way. And when we finally decide, when we risk ourselves, something in us is transformed: a new flame begins to burn. When we meet with the other, with the different, we meet ourselves, and we meet God, the All-Another… the All-Love.

This at first glance seems rather contradictory and paradoxical. How can it be possible that, trying to understand and learn more about other, someone completely different from me, I will have a deeper and more real knowledge about myself, about who I am? If we stop to think a little, we’ll see that this makes some sense, that is not at all absurd. How would we know that there is a yellow, if there were no green, blue and all the other colors? How would we know what is the sweet flavor, if we never tasted anything salty? How do I know who I am, if everybody else were equal to me? There wouldn’t be, basically, other: everyone would be the same!

We recognize the identity of the things and people basing ourselves on the differences. We know what or who they are by contrast, by the diversity in relation to the surrounding. Hence comes the need we feel to have relationships, the desire that impels us to go to the other, to the different, to have a more well-defined identity, to know more clearly who we are and thus be more intensely.

This process of meeting the other, this risk that we run or not, in most cases is very difficult, and even painful, because we can never have a relationship only with one part of someone else: this one is a whole, entire. We can not go to the other is willing to make known only part of ourselves. When we relate with others, we present ourselves as we are: with qualities, joys, problems and constant changes in mood. And not only that: we are asked to also welcome the other as it is, in its entirety, with all the faults and skills.

Often there is a tendency to try to make the other be one of us, think the same way we think and have the same habits that we have. This trend goes directly against our deepest nature, our thirst for fundamental identity and for meaning. It is like all people want to be exactly equal to us: same face, body, ideas, everything! Even the death would be better than this! It is exactly the diversity that makes our world so beautiful and so pleasant to the eyes. Unity is not opposed to diversity, but both complement one another and form a harmony necessary for life.

And for that dialogue, exchange of ideas and sharing of experiences in life, to happen and give many fruits, we need love. Not any love, but one who is patient, kind, which has no envy and is not proud or arrogant. We need the love that is not scandalous, that does not seek its own interests, not angry, not hatred. We need the love that is not pleased with injustice, but rejoices with the truth; excuses everything, believes all, hopes all, supports all.