Paz!

Vou falar um pouquinho sobre o workshop que fui na semana passada… No último email acho que ficou meio em aberto, né? O irmão Cyril (alemão) começou contando um pouco sobre a morte do irmão Roger. Na época, ele tinha recém fraturado a perna e não podia assumir os trabalhos usuais na comunidade, então os irmãos o encarregaram de ler todas as milhares de cartas e de emails que eles recebiam das pessoas, manifestando suas condolências e sua amizade à comunidade. Uma dessas cartas o impressionou bastante. Dizia o seguinte:

“As circunstâncias dramáticas da morte do irmão Roger são meramente uma forma exterior que serve para tornar ainda mais clara a sua vulnerabilidade, que ele cultivava como uma porta pela qual, por preferência, Deus tem acesso a nós.”

(Fr. Marcellin Theeuwes, prior do monastério Grande Chartreuse, na França)

Forte, né? Ele falou que, quando as pessoas olham o título do workshop, logo associam vulnerabilidade a fraqueza, mas disse que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Acho que a melhor forma que eu achei de explicar vulnerabilidade foi usar o Super Mario Bros como exemplo. Sabe quando você pega a estrelinha e fica piscando, e nada pode te atingir? Pois é, isso é invulnerabilidade. Ser vulnerável é o contrário disso, é não ter nada ao seu redor o protegendo: escudos, muros, barreiras… E que é impossível seguir Jesus sem cultivar essa vulnerabilidade. Nos dias de hoje, muitas pessoas se fecham, vivem em meio ao medo… Existem os condomínios fechados, carros blindados, seguranças, câmeras de vigilância, enfim, toda espécie de aparato para que possamos estar seguros… Mas seguros de quê? Por que temos tanto medo assim? O que tanto nos assusta? Talvez nós mesmos… Não quero provar nada aqui não, a idéia é só fazer vocês pensarem um pouco a respeito, talvez discutir com alguém sobre isso… =) Pra mim fez muito bem pensar nisso! =)

O irmão Cyril disse que, depois da morte do irmão Roger, muitas pessoas disseram que tudo iria mudar na comunidade, que colocariam câmeras dentro da igreja, que a segurança seria reforçada, para que coisas como essa não voltassem a acontecer. Disse que, se eles realmente fizessem isso, com certeza causariam um dano infinitamente maior do que qualquer faca poderia causar (para os que não sabem, o irmão Roger foi morto a facadas). Não se trata de sair por aí procurando facas e se jogar de peito aberto contra elas, mas talvez não ter tantos muros à nossa volta, impedindo às pessoas e a Deus o acesso até nós… =)

Ontem terminei de ler o livro sobre a vida do irmão Roger. Tem sido realmente muito bom, na parte final ele fala um pouco sobre a comunidade, vou transcrever abaixo:

“Quem és tu, pequenina comunidade de Taizé? Serás um instrumento eficaz? Não. Nunca. Por mais belo que ele fosse. Serás um grupo de homens que se juntaram para serem humanamente mais fortes de forma a realizarem o seu próprio projeto? Também não. Levaremos uma vida comunitária unicamente por nos sentirmos bem juntos? Não. A comunidade acabaria por ser um fim em si mesma e isso permitir-lhe-ia construir pequenos mundinhos fechados. Ser felizes juntos? Certamente, mas sempre pela oferta das nossas vidas.

Quem és tu, pequenina comunidade de Taizé, espalhada pelos diversos lugares do mundo? Tu és, sobretudo, uma parábola de comunhão, um simples reflexo da única comunhão que é o Corpo de Cristo, a sua Igreja, e, por isso, um fermento no seio da família humana.

A que és chamada? Na nossa vida comunitária, não é possível avançar senão descobrindo, agora e sempre, o milagre do amor, no perdão cotidiano, na confiança do coração, na compaixão, no olhar de paz dirigido àqueles que nos são confiados… Afastando-nos do milagre do perdão, tudo se perderia, tudo se dissiparia.

Pequenina comunidade de Taizé, qual será o desígnio de Deus a teu respeito? Ser vivificada pela comunicação da santidade de Cristo.”

forte abraço,

Lucas.