Olás! Essa semana conheci duas meninas alemãs espetaculares, a Britta e a Bianca, gente finíssimas mesmo. Elas têm trabalhado na acolhida durante toda a semana, e a gente tem se encontrado bastante. Elas são praticamente irmãs, se conhecem desde muito novinhas, são amigas há muito, muito tempo. Um dia desses, à noite, a gente tava conversando sobre o irmão Roger. Elas estavam aqui no ano passado, quando ele foi morto, e partilharam um pouco da experiência delas. Conversei bastante sobre isso também com o meu irmão de contato, o irmão Remi, um francês muito bacana que vai me acompanhar toda semana, pra eu falar o que estou sentindo, partilhar um pouco do que estou experimentando, etc. E além disso, o irmão Hanyol (o coreano que falei outro dia) também tem falado bastante do irmão Roger durante as introduções bíblicas dessa semana.

Eu fico imaginando como foi para esse irmão dar uma notícia tão terrível, dessa forma… Ele falou 2 ou 3 frases só, em francês, e outros irmãos traduziram para o inglês e o alemão. A maioria das pessoas (e todos os irmãos) ficaram na igreja mais meia-hora, rezando e cantando. Foi uma noite muito difícil para todos, como se pode imaginar. No “Oyak”, o lugar onde todos se reúnem depois da oração para conversar (único lugar onde é possível comprar bebida alcoólica, uma cerveja por pessoa apenas), tudo estava vazio. Os irmãos responsáveis pela venda de doces, salgados e bebidas só tiveram o trabalho de trancar o lugar, pois tudo estava deserto. Não havia o menor clima para festa, para conversa. À meia-noite, os sinos tocaram, e foi feita uma oração extraordinária, pois muitos não conseguiam dormir direito, tamanha a dor da perda. Na manhã seguinte, logo após a primeira oração comunitária do dia, já havia muitos repórteres, câmeras de TV, querendo registrar pessoas desesperadas em prantos, mas eram poucos os que estavam chorando. A maioria das pessoas estavam serenas, tristes sim, mas pouco desespero, pouco alarde… A colina estava extremamente silenciosa, um silêncio dilacerante, nunca antes visto.

A presença de tantas pessoas nessas horas tão difíceis foi muito importante para os irmãos, ajudou eles muito. Normalmente, numa família, quando acontece a perda de alguém muito querido, os mais próximos só têm tempo de chorar a perda depois de muito tempo, pois têm que se encarregar de preparar os funerais, receber pessoas, que ás vezes vem de longe para prestar uma última homenagem, mas os irmãos tiveram um pouco de “sorte”, se podemos dizer assim. Como é uma comunidade religiosa, eles têm 3 orações diárias normalmente, e podiam usar um pouco desse tempo para refletir, para digerir um pouco o que estava acontecendo. Mas tiveram sim, muito, muito trabalho nos dias que se seguiram. Mais ou menos 12 mil pessoas vieram para o funeral. Pode-se imaginar o trabalho com a acolhida, acomodação, alimentação, a preparação das celebrações, do que teria que ser dito para todos…

Apesar de não o ter conhecido pessoalmente, nos últimos dias tenho me sentido bastante próximo do irmão Roger. O irmão Hanyol têm contado muitos fatos simples e profundos da vida dele, da experiência dele com irmão Roger. Disse que, uma vez, quando ele e mais alguns irmãos estavam em Calcutá, ajudando madre Teresa, ela deu pro irmão Roger uma menina com 6 meses de idade, pra que ele tomasse conta. Ele não sabia o que fazer, se confiava a alguma família, se deixava na Índia, se trazia pra comunidade… Arranjou todos os papéis necessários para imigração e levou a pequena pra França, para ser cuidada pelos irmãos na comunidade. Ela não gostava de dormir no berço ou na cama, mas adorava demais o colo dos irmãos, era o xodó da comunidade. A irmã do irmão Roger, que mora numa pequena casa ao lado da comunidade, vinha sempre para ajudar os irmãos a cuidar da pequena, pois os irmãos têm muito trabalho e estão sempre bastante ocupados.

A menina cresceu, foi até engraçado. Parece que o irmão Roger queria que ela namorasse um rapaz que ele gostava, mas ela arrumou outro cara que ele era totalmente contra, e casou-se com ele. Uma das irmãs do irmão Roger foi casada num daqueles casamentos arranjados pelos pais, e acho que ele ainda não tava muito acostumado a dar essa liberdade pra uma “quase filha”, sei lá. Mas o casamento deles é muito feliz até hoje, parece que tem um filho, ou mais, e volta e meia visitam a comunidade. Vieram para o funeral do irmão Roger, e o irmão Alois, o novo prior, disse que a comunidade é a casa deles, que eles tem toda a liberdade para vir quando bem quiserem, que eles se sentem imensamente felizes de recebê-los, sempre.

Diz que irmão Roger era um sujeito muito impaciente. Com situações, com coisas… nunca com pessoas. Não suportava engarrafamentos. Quando algum irmão estava dirigindo, e ele estava no carro, eles pegavam o acostamento para ir mais rápido, tamanha a impaciência de irmão Roger. Quando começava o inverno, e começava a ficar mais frio, verificava a cada 3 segundos todos os aquecedores, pra ver se estavam funcionando mesmo… Mas para as pessoas, tinha uma paciência sem limites. Podia ficar 2 ou 3 horas escutando alguém, com toda a atenção do mundo. Sempre tinha tempo para falar com seus irmãos, para a partilha, para uma boa conversa.

Essas pequenas coisas vão me aproximando um pouco dele, desse ser humano extraordinário que viveu 90 anos entre nós, e que plantou tanta coisa bonita nessa terra. Sempre que vou no túmulo dele, bato maior papão com ele, umas 2 ou 3 vezes por semana. Essa proximidade com ele tem me ajudado muito também a estar mais próximo do Cristo, pelo qual ele mesmo viveu toda a vida, buscando, seguindo… amando! =) Bom. Isso é um pouco do que eu tô vivendo… Tem sido uma experiência bonita. Nunca tinha encontrado antes com ninguém que testemunhou a morte dele, e acho que nunca conversei sobre ele com pessoas que conviveram com ele. É isso… =)

forte abraço,

Lucas.