Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si-próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.

Caríssimos amigos e amigas,

Escolhi este pequenino trecho de um poema de Alberto Caeiro porque condensa muito do que quero falar, mas não vou me demorar explicando-o. Já dizia Mário Quintana: “Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo…” Deixo para vocês o prazer de saborearem, por si próprios, estes profundos versos…

Fui incumbido pelos meus colegas de fazer uma homenagem a Deus, e que grande alegria o é para mim fazê-lo! À primeira vista, isso pode parecer um tanto quanto estranho, especialmente para aqueles de nós que não professam uma fé específica, ou ainda para os que negam a existência de Deus, objeto desta homenagem. No entanto, no discurso que ora faço, não me dirijo somente aos que crêem, mas a todos e a todas aqui presentes, sem exceção.

O Deus que venho homenagear não tem um nome, simplesmente porque Ele é muito maior do que um nome, e um nome não seria capaz de representar minimamente tudo o que Ele é. O Deus que venho homenagear não é o deus dos cristãos, não é o deus dos judeus, não é o deus dos muçulmanos, não é o deus dos hindus, não é o deus dos espíritas, não é o deus das mães e pais-de-santo… O Deus que venho homenagear não fica no céu, bem no alto, observando e vigiando tudo lá de cima, carrancudo, “mexendo os pauzinhos”, pronto para castigar cada um ao primeiro erro cometido… não.

O Deus que venho homenagear é o Deus-Todo-Amor, e que só pode amar… É Aquele que está no nosso meio, e não O conhecemos… Que não se impõe, e permanece bem perto de nós como uma presença silenciosa, amiga e terna, sofrendo quando sofremos, se alegrando com a nossa alegria, chorando com as nossas dores… É o Deus que ninguém pode possuir ou usar em favor destes ou daqueles interesses; que quanto mais tentamos alcançar, mais ele se nos escapa por entre os dedos…

E por que homenagear tal Deus? Por que homenageá-lo na ocasião da minha formatura? Para agradar meus familiares e deixá-los mais felizes? Tenho certeza de que minha formatura por si só já os agrada bastante e os deixa bem felizes… Seria então para cumprir uma tradição? Ora, toda cerimônia de colação de grau que se preze tem uma homenagem a Deus, a minha não poderia ser diferente! Creio que não… Também seria, no mínimo, ingenuidade da minha parte dizer que “sem ele não estaríamos aqui”, frase que me cansei de escutar em diversas colações de grau em que estive presente. Temos, sim, nossos méritos por chegar onde chegamos. Realmente, não foi Deus quem fez os nossos trabalhos, não foi ele quem ficou acordado de madrugada estudando para aquela prova complicada, não foi ele quem chorou nota com o professor, tampouco foi ele quem redigiu aqueles relatórios que pareciam impossíveis de terminar… Não, não é por nada disso, pelo menos não são estes os motivos pelos quais eu estou aqui, a proferir este discurso.

Homenageio a Deus hoje, no dia da minha colação de grau, porque é Ele quem coloca dentro de nós os sonhos… Não os pequenos e mesquinhos, mas os grandes… Grandes sonhos, grandes desejos… Sinceros, profundos… Graves! Desejos de utilizar o que aprendemos para construir um mundo mais justo e mais humano; desejos de doar a própria vida por um amigo, ou mesmo por um desconhecido; desejos de consumir todas as nossas energias em função do que acreditamos; desejos de tornar mais digna a vida dos que estão à nossa volta… Se pararmos um pouco para procurar, no silêncio encontraremos esses grandes sonhos… E cada um sabe exatamente o que sonha, o que deseja…

Dadas estas tão grandes razões, qual seria, então, uma homenagem à altura de tal Deus? Penso que cabe não só a mim ou aos meus colegas formandos, mas a cada um de nós fazer a verdadeira homenagem, não simplesmente com muitas orações, palavras bonitas ou ritos, mas de maneira especial através de atitudes concretas e das nossas próprias vidas, sendo homens e mulheres conscientes, atentos e fiéis aos nossos desejos mais profundos, e orientando todas as nossas escolhas e decisões em direção a eles.

Discurso escrito e proferido por mim na minha
cerimônia “fantasia” (não-oficial) de colação
de grau, no dia 19 de janeiro de 2006

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Homage to God

I do not believe in God because I have never seen him
If he wanted me to believe him,
No doubt that he would come and talk to me
And would step into my door
Saying, Here I am!

But if God is the flowers and the trees
And the mountains and the sun and the moonlight,
Then I believe him,
Then I believe him at all times,
And all my life is a prayer and a mass,
And a communion with the eyes and through the ears.

But if God is the trees and the flowers
And the mountains and the moonlight and the sun
Why do I call it God?
I call it flowers and trees and moutains and sun and moonlight;
Because, if he has made himself, for me to see,
Sun and moonlight and flowers and trees and mountains,
If he appears to me as being trees and mountains
And moonlight and sun and flowers,
It’s that he wants me to know him
As trees and mountains and flowers and moonlight and sun.

And because of that I obbey him,
(What else do I know of God that God of himself?)
I obbey him living, spontaneously,
As one who opens his eyes and sees,
And I call him moonlight and sun and flowers and trees and moutains,
And I love him without thinking about him
And I think about him seeing and listening,
And I walk with him at all times.

Dearest friends,

I chose this tiny excerpt from one of Alberto Caeiro’s poem because it contains much of what I want to speak about, but I will not take long explaining it. Mário Quintana once said: “If anyone asks you what you meant to say with a poem, ask him what God meant to say with this world…” I leave to you the pleasure of tasting, for yourselves, these deep verses…

I was charged by my colleagues of making an homage to God, and what a great joy it is for me to do it! At first sight, this might sound quite strange, specially for those of us who don’t have a specific belief, or even for those who deny the very existence of God, object of this homage. However, in this speech, I don’t address only those who believe, but every single man and woman present here, without exception.

The God I pay homage to does not have a name, simply because He is much greater than a name, and a name would not be capable of representing minimally all He is. The God I pay homage to is not the god of christians, not the god of jewish, not the god of muslims, not the god of hindus… The God I pay homage to does not stay in heaven, up very high, watching everything from up there, angry and mad, ready to punish each one at the first mistake made… no.

The God I pay homage to is the All-Loving-God, and that can only love… He is the one who is in the midst of us, and we dont know Him… He does not impose himself, and remains very close to us as a silent presence, friendly and tender, suffering when we suffer, rejoicing with our joy, crying with our pains… He is the God who no one can possess or use in favor of these or those interests; who, the more we try to reach, the more he escapes from between our fingers…

And why pay homage to such God? Why pay homage to him at the occasion of my graduation from university? To please my relatives and leave them more happy? I am sure that my graduation itself already pleases them much and leaves them very happy… Would it be, then, to fulfill a tradition? Every graduation ceremony always had a homage to God, mine could not be different! I believe not… It would also be, at least, silly of me to say that “without him, we would not be here”, sentece that I got tired of hearing in many graduation ceremonies I have been present to. We have, indeed, our merits for being where we are now. It was not God who did our school essays; it was not him who stayed awake the whole night, studying for that complicated test; it was not him who cried for the professor to get a better grade; it was not him who wrote those reports that seemed impossible to finish… No, it is not because of any of this, at least these are not the motives for which I am here, saying this speech.

I pay homage to God today, at the day of my graduation ceremony from university, because it is Him who puts inside of us the dreams… Not the small and niggard ones, but the great ones… Great dreams, great desires… Sincere ones, deep ones… Serious ones! Desires of using what we have learned to build a more just and more brotherly world; desires of giving up the own life for a friend, or even for a stranger; desires of consuming all of our energies in function of what we believe; desires of giving more dignity to the life of the ones who surround us… If we stop a while to search, in silence wi will find these great dreams… And each one know exactly what he dreams, what he desires…

Given such great reasons, what would be, then, a good homage to such God? I think that it is not just my or to my colleagues’ responsability to pay the true homage, but it’s each one of us’… Not simply with many prayers, beautiful words or rites, but in a special manner through very concrete attitudes and through our own lives, being counscious men and women, aware and true to our deepest dreams, and directing all of our choices and decisions towards them.

Speech written and spoken by me at my
ceremony of graduation from
University, on January 19th of 2006.