Estava dando uma olhada geral nas listas das quais faço parte, e vi uma mensagem no Nosso Quintal (lista informal do PUR de Sampa) com o título desse post no subject. Já tinha umas 3 respostas, e fiquei todo animado… Escrevi uma mensagem super bonita (eu achei, pelo menos) e resolvi compartilhar com vocês, leitores (assíduos?!) destre singelo blog…

Paz !!!

Fiquei muito feliz quando vi esse tema sendo discutido nessa lista tão querida! E não pude deixar de dar minha contribuição. Eu pessoalmente já participei de três Missas nas quais não se usaram hóstias. Vou relatar as duas experiências.

Uma foi na Missa aqui na Unicamp, que tem toda terça à noite. Aconteceu que naquela semana, o lugar onde a gente costumava guardar as coisas da Missa (panos, cálice, patena, âmbula, hóstias, vinho etc etc) estava fechando mais cedo, e ninguém ficou sabendo. Chegou na hora da Missa e tínhamos o povo assembléia), o padre, mas não tínhamos os paramentos… O padre Toninho, que por sinal é o padre mais querido de toda a história da Unicamp (pessoas das mais diversas “facções” da igreja respeitam muito ele), sugeriu de improvisarmos. Um amigo nosso tinha uma garrafa de vinho (canônico) no carro. Eu e mais outro cara fomos no bandejão, que fica na frente do prédio onde é a Missa, e pegamos uns 3 pães franceses. As meninas conseguiram um prato e um copo americano, e um pano de prato com os funcionários da faculdade… Improvisamos um saca-rolhas com chave de carro para abrir o vinho… no último momento, uma das meninas lembrou que tinha trazido os panihos (corporal, sangüíneo, etc) e não precisamos usar o pano de prato…

E foi um momento tão bonito, tão profundo!!! Estávamos em umas 20 pessoas, e foi legal cada um correr atrás de uma coisa, cada um dando a sua contribuição pra fazer a Missa acontecer! Na homilia o padre falou muito do sentido daquela celebração, que estamos muito acostumados a olhar Jesus na hóstia branquinha, redondinha, bonitinha … e corremos o risco de olhá-lo como alguém muito distante, lá em cima, no mais alto dos céus, longe de nós… Na época de Jesus, na primeira eucaristia que aconteceu, ele celebrou com um pão que os judeus costumavam comer todos os dias, que fazia parte do cotidiano deles, como o pão francês faz parte do nosso… é esse o sentido! Um Deus que é todo-Amor e se faz um de nós, que se faz presente na nossa história, nas nossas decisões, no nosso dia-a-dia …

Outra ocasião foi num mosteiro beneditino (Mosteiro da Anunciação do Senhor) em Goiás Velho – GO, durante a Jornada da Confiança de 2004. E essa Missa ainda teve a presença do bispo local, além de todo o pessoal do mosteiro, pessoas da comunidade, encontristas … Foi com pão sírio, numa cumbucona de porcelana … e foi uma experiência que até hoje guardo com muito carinho no coração, forte mesmo!!! O mosteiro em si é muito diferente do usual … fica numa comunidade bem carente de Goiás, e fica aberto o tempo todo, qualquer um do bairro entra e sai a hora que quer. O hábito deles é todo branco, quase igual o hábito dos monges de Taizé, mas eles só usam nas celebrações … normalmente eles andam com um “hábito light”, que não tem a parte de baixo. Eles usam uma calça e esse hábito branco da cintura pra cima, com um capuz, mó legal… mas enfim, isso são outros 500, voltemos à questão da Eucaristia…

A terceira e última Missa foi na quinta-feira santa desse ano, num retiro de silêncio (inaciano) em Itaici. Foi celebrada no refeitório da casa de retiros, com uma mesa gigante no meio, e todas as cadeiras em volta (tinha umas 40 pessoas mais ou menos). Foi usado um pão o mais parecido possível com o da época de Jesus que conseguiram… redondo, bem grandão, e um só… o padre partiu em quatro pedaços (ainda grandes), e foi passando, cada um tirava um pedacinho, comia e passava pro próximo… e o mesmo com o cálice, cada um tomava um pouco e passava para o próximo… e foi legal !!!

Nas três situações que eu falei, a segunda difere um pouco da primeira, pois o pão sírio até onde eu sei, não contém fermento, enquanto o pão francês tem. Ou seja, teoricamente a Missa com pão francês não seria válida. Mas pesquisei em alguns sites, e parece que o pão sírio tem outras coisas além de trigo e água, como óleo, sal, etc… mas aí acho que depende de como se faz… acho que tem maneiras de fazer o pão sírio com fermento, e deve ter maneira de fazer sem sal e sem óleo, sei lá… E então, das 3, só a terceira seria “de verdade”, pois o pão era só de trigo e água… Mas putz! Na boa gente… Acho no mínimo estranho condicionar a presença real de Jesus a este ou aquele ingrediente… temos que ter equilíbrio! Imagina só, as freirinhas estão fazendo as hóstias lá, e por acidente caem algumas gotas de óleo ou alguns grãos de açúcar ou de sal em algumas delas, e pronto, coitado daquele que comer aquelas hóstias! Não vai estar comungando, vai estar literalmente “comendo hóstia”, pois não vai ser Jesus!!!! Acho isso um pouco de exagero…

Claro que não estou também falando para que se celebrem todas as Missas com pão sírio, ou com pão francês ou com qualquer outro pão… O problema não está na hóstia em si… mas sim como o mistério é vivido… dois aspectos tem que ser lembrados, por serem fundamentais: 1) A Eucaristia é o cúmulo do Deus-todo-Amor que se coloca em espírito, corpo, alma e divindade no meio de nós, se faz próximo de nós, e devemos tomar cuidado para não colocá-lo tão alto a ponto de o perdermos de vista … 2) A dimensão comunitária da Eucaristia, ou seja, a fração do pão, que é repartido por todos. Realmente essa dimensão é um pouco menos visível quando só a “hóstia do padre” é repartida de fato, e as outras já são prontas, uma para cada um…

E caso alguém pergunte se eu considero válidas essas celebrações que eu participei e relatei acima… não sei ! Se a Igreja diz que não são, quem sou eu pra dizer o contrário? Mas também não sei até que ponto é papel da Igreja falar onde Jesus está ou não está, onde ele age e onde ele não age… tem aquela passagem, que nem sei se cabe aqui, mas me veio agora … “o vento sopra onde quer, você ouve o ruído, mas não sabe de onde vem, nem pra onde vai”… Mas quem sou eu pra falar o que é ou não é papel da Igreja? hehehehehe =) Bom. Era isso… Espero ter acrescentado alguma coisa de útil na discussão…

forte abraço, (desculpem pelo tamanho do email)

Lucas da Li.

“O que sacia e satisfaz a alma não é o muito saber, mas sentir e
saborear internamente as coisas” (Santo Inácio de Loyola)